A VIUVINHA ADOLESCENTE
Prefácio por Flávio Mello
Lembro-me de nós ainda jovens e no fulgor latente do criar, onde sentávamos e bebíamos longos cafés a espera de novos escritos, escritos que já se tinham em muito comum e em comum. Lembro-me também dos diferentes olhares que dávamos um ao outro na medida em que crescíamos no veio literário, claro que eu nem tanto, pois parte de meu avanço como escritor dá-se sob as interferências de Jorge Lazar, o que me foi e é de grande valia e estima.
Encontro hoje um poeta adulto em dois hemisférios, primeiro o jovem se tornou homem, maduro... e mais maduro se faz o poeta, nesse globo – o sol ilumina muito mais os rios e vales do escritor, mesmo que em seus versos encontremos, também, a cor pastel do sertão
O meu mundo é como o céu do agreste sergipano,
(...)
Porque as noites em Sergipe duram dias e dias
já notava em seus versos a sutileza e a delicadeza de grandes mestres, basta a primeira leitura no corpo desta viuvinha e o leitor atento será emergido em diferentes autores, tempos e espaços no território da literatura, contudo acredito, e quero muito acreditar, que com o nascimento de sua sobrinha Izabela sua poesia ganhou mais uma lantejoula, o mar mais um estrela junto com o céu
ah que doce encanto,
o silêncio nos olhos de Isabela.
são esses os maviosos favores com que a vida nos brinda, o olhar de uma criança, o choro de uma criança e a alegria de ser, estar e escrever à criança, ah é doce ser poeta e amar a poesia em notas de real(idade).
Fez-me bem caminhar pela praia da poesia desse livro, não consigo escrever sem doses largas de lirismo, sentir as areias finas e quentes de sua poesia entre os dedos, o cheiro do mar, o som do mar e a voz de um mar que se esconde nas conchas e orelhas de poetas e amantes (de poesia). As inúmeras leituras que venho fazendo sobre a poesia de Lazar me fazem mergulhar em três tipos de mundos, o primeiro é o da poesia pela poesia, a poesia que se veste do mais digno manto da pureza, como vemos em poemas como “De poema a poesia”, “O silêncio de Isabela”, “A simplicidade de Isabela” e “Noite de Poeta”, esse último um lindo soneto dedicado a sua amada Priscila, o segundo é o poeta social, diga-se de passagem o que mais apreciei no volume, com poemas que edificam o estado primordial do ser humano – a bravura e a luta do ato de viver, como vemos nos poemas, “Por um sorriso”,”O meu sertão umedecido”, “A ‘mulher’ ao telefone” e em poemas como “Eu, máquina” e “Àbala” os dois últimos revelam um alto grau de técnica e pesquisa por parte do poeta, e por último poemas que exaltam o amor de formas ímpares com sutileza erótica como é o caso de “Uma benção”,”Melancólico escuro”, “A viuvinha adolescente” e na forma surpreendente de se propagar o amor em “Amor capital”, poemas que fazer emergir no leitor o doce estado do querer e do procurar.
No correr dos olhos nos textos em papel sulfite, tive essa honra, deparei-me com dois textos, velhos conhecidos meus, que por sorte a minha e sua, leitor, o autor em sua seleção não os deixou de fora, o poema/manifesto “Manifesto” que como um grito roto o poeta ergue sua visão hermética e dilacerante da poesia aos cantos devastados da mente humana
(...) Chegará o dia em que não se ouvirá o ínfimo barulho da poeira a inebriar o vento, não se sentira indômito cheiro, nem o redemoinho que resulta deste acasalamento. (...)
e espero não ver esse dia chegar, mesmo sabendo que todo poeta, por ser vate, é sobretudo profeta. O segundo texto, com o qual fecho esse, simplório e emocionado, prefácio é nada mais que um poema/publicitário, um poema/outdoor, poema/anúncio, um poema reflexivo e que em seus dois versos nos fazem pensar para onde foram as pessoas que nós escritores procuramos, pois ainda precisamos desses leitores.
Fecho agora, fecho-me, uma vez que lhe abri o portão principal, espero não ter-lhe dado nenhuma pista do que irá encontrar aqui, juro que espero, pois as belezas da vida são mais doces quando por nós mesmos são encontradas... leitor atento, encantado como eu, por esse encantador de poesia, faça-me um favor, ao terminar de ler esse livro, assim que o terminar, com muito carinho doe uma dessas poesias, mesmo que arranque desse livro uma página o fazendo sangrar, dê de presente o que julgar mais lindo, pois para ti... eu lhe ofereço-o todo.
Boa leitura!

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