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Para minhas
filhas
Queria
poder ter seus olhos, acordar pela manhã e ver o mundo como vocês os veem.
Seria lindo, seria mágico... eu seria um pai melhor. O tempo me fez desver
muitas coisas, ou a forma como eu as via... hoje desbotado o mundo se faz mais frio,
muitas vezes com sabor de papelão, se é que posso descrever esse sabor. O tempo
me fez mais frio, me fez desacreditar que os dias chuvosos vão passar, e que
esses mesmos dias chuvosos, também guardam em si sua beleza, mas essa beleza
escorre pelos telhados de barro e ruas lamacentas.
Eu sei que
não deveria ser assim... mas o que me sustenta, me mantem em pé é a fé que
depositam em mim, quando me chamam de pai, de herói, de amigo... ou mesmo
quando olham pra mim e começam a sorrir.
Eu sei que
deveria pensar diferente, mesmo por que, quando chego do trabalho são vocês que
me fazem sorrir e me fazem deixar de pensar em desistir. Quando me mostram os
desenhos feito a giz, nas paredes da casa, entre as flores rasteiras do jardim.
Riu quando
ouço vocês rindo do filhote brincando na sala, quando me chamam para ver a gata
dormindo entre os cobertores sujos no chão da lavanderia. Riu quando
transbordam de alegria, quando chegam a chorar de tanto rir quando estão
assistindo esses programas da TV, seus olhos se fecham, viram dois riscos
curtos, com espaços e cheio de estrelas.
Eu queria
poder enxergar o mundo novamente, como o enxerguei na idade de vocês, quando
olhava para cima e via o rosto do meu pai ao lado dos raios de sol, como quando
olham para mim, na mesma posição desses dois astros.
Eu queria
poder olhar as nuvens no céu e descrever as formas que elas revelam, como
quando vocês me mostraram aquela nuvem que parecia uma tartaruga nas
profundezas infinitas do céu. Eu queria olhar pra mim e ser a metade do que
vocês dizem que sou, eu queria, de verdade, ser o melhor pai, o melhor amigo, o
melhor homem... mesmo sabendo que não sou, mesmo sabendo que nunca serei.
Emprestem-me
seus olhos para que eu possa me amar como dizem que me amam.
Flávio
Mello
30/08/2019
sábado, 31 de agosto de 2019
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Categoria:
Crônica
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Meu querido amigo,
Hoje é o seu dia... Como não escrever para
você? Você que diariamente, há muitos anos, me ofereceu os melhores momentos,
me fez rir e chorar, me causou espanto, medo e terror... Mas sempre esteve lá,
disposto e atento, sempre por perto, ao toque das minhas mãos.
Há meu nobre amigo, já te vi magrinho, gordo,
pequenino e tão grande... Mas nunca me importou tua aparência, apenas o que você trazia, e traz, no
seu interior, seu espírito.
Ah... Como
você é especial.
Você fez e
faz de mim um homem melhor, ah e hoje... Hoje faz o mesmo com minhas filhas.
Fiquei tão
feliz quando pela primeira vez as vi abraçadas a você... E quando dormiam, você
ao lado delas, ninando seus sonos e ilustrando seus sonhos.
Foi tão
bonito...
Meu pai me
apresentou você, você se lembra?
Eu lembro, eu lembro do teu cheiro, do teu peso, da tua pele lisa e perfumada, você estava lá, cercado de amigos importantes, e eu pensei: ah, nunca que ele vai dar bola pra mim... Quem sou eu?! Mas você veio a mim... Tão lindo, humilde e me contou uma das suas mais belas histórias...
Eu lembro, eu lembro do teu cheiro, do teu peso, da tua pele lisa e perfumada, você estava lá, cercado de amigos importantes, e eu pensei: ah, nunca que ele vai dar bola pra mim... Quem sou eu?! Mas você veio a mim... Tão lindo, humilde e me contou uma das suas mais belas histórias...
Você se
lembra dela? Não? Ah mas eu lembro... Você me falou de um homem de nome Nemo,
de seu submarino, das calçadas marítimas e infinitas aventuras... Lembra? Ah...
Eu, você e Júlio Verne.
Ah meu
querido amigo... Foi graças a você que me tornei escritor e professor... E eu
conto e reconto tudo que me ensinou e ainda ensina... Muito obrigado por tudo
que fez por mim, e pelo que fará por minhas filhas e alunos...
Eu sempre
irei carregá-lo comigo, junto ao meu coração e em minha mochila, mesmo quando
estiver velhinho, sempre vou te tratar como me tratou em nosso primeiro
encontro, cheio de humildade e amor.
Gratidão meu
amigo Livro.
sábado, 4 de maio de 2019
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Categoria:
Crônica
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ou quem somos
"Esses
dias me botam pra baixo, Eu sei, Sabe, será que sabe mesmo, Acho que sim,
amor..., Nossa quanto tempo faz, quanto tempo, Quanto tempo o quê, Que não me
vem de amor..., me chamar assim, nossa, séculos, nem nas guerras, nem nas
pazes, nem nos mares, parece que me vejo perdida num deserto e num deserto de
mim, de mim mesma, sem meu eu, seu um eu para encher-me até a tampa, mesmo não
havendo tampa, Como não há tampa, eu sou a tampa, É, quem sabe, pode ser, Pode
ser, como assim, o que foi, Nada lindo, esquece, acho que é o tempo, esse céu
cinza, esse lar escuro, com cheiro de mofo, tão vazio de cor e cheio de sombras
largas e profundas, as vezes parece que me afogo nelas, que me perco dentro de
um mar de escuridão, Sou um ponto de luz nessa hora, É, pode ser, mas distante,
entende, Nossa, vive acabando com minha poesia, Por que nem tudo é literatura,
Nossa eu sei, como você pode, nossa... Nossa... como posso, como posso
erguer-me de manhã e olhar o céu, um céu como esse olhe, vê..., entende, Sim,
está feio mesmo, Nossa demais, parece que as corres escoaram durante a noite e
foram ralo abaixo em algum rio poluído da humanidade, Nossa como você fala
bonito, Bonito, É profundo, sei lá, parece que filosofa tudo, que tudo há porquês?
acho tão bonito, tão bom te ouvir, você me inspira, Inspirar, sei lá, parece
tudo tão perdido, não aguento ver o dia assim, Assim como, Morto, Morto, É
morto, fenecido, estiolado, como se uma foice tivesse rasgado a barriga da vida
e sugado toda a essência da humanidade, olhe as pessoas, olhe as pessoas, O que
tem as pessoas, Olhe para as vestes, olhe o que cobre seus corpos, olhe tudo
tão antigo, com cheiro de naftalina ou gosto do guardado, guarda-chuvas,
sobretudos, tudo tão escondido, Pronto, Pronto o que amor, A energia voltou,
Graças a Deus... a novela."
domingo, 3 de março de 2019
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Categoria:
Crônica
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Bom
dia,
Ontem
foi um sonho e anjos tocaram suas trombetas douradas no alvorecer... um sonho.
Entre
as copas das árvores e telhados das formosas campas raios de sol se deitavam em
uníssono estribilho. Um sonho.
Entre
os corredores da necrópole campas formosas, uma reunião eterna de silêncio e
reflexão de meus irmãos de ontem e de hoje.
Mausoléus
dos passos perdidos.
O
dia hoje despontou com as ruas molhadas pela chuva noturna, pena eu não a
ouvi... sei que caiu e com sua queda um cheiro de esperança, pois amanheceu
para mim.
O
poeta sussurra em meus ouvidos... "eu acredito" e eu também... o mês
de fevereiro pode partir com seu cheiro e sabor de morte. Sigamos... ainda
temos uma jornada rumo ao desconhecido.
Nossos
passos passados passam calados por tormentos, sofrimentos, perdas, saudades...
é a túnica que nos serve. Mas sigamos, viver é o caminhar e os passos pesados
dos elefantes, a trilha profunda que se arrasta de nós para o infinito.
Sigamos.
Viver
nos basta.
Vejo
pinturas em um enorme salão, todas assinadas por Ele, e D`ele e somente D`ele é
a autoria... retratos a óleo delicadamente perfeitos... pessoas que conheço,
que não conheço, dezenas de milhares...
mas não vejo a minha. O curador ainda não a desembrulhou de seu papel pardo...
não é a hora.
Viver
me basta.
É hora de perdoar, de esquecer a areia quente que engolimos, é hora de abrir os braços e pedir perdão.
Fiquem
bem, sejam fortes e somemos.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
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Categoria:
Crônica
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Para Ângelo Simões
E aos meus alunos da 3ª Série do E. M. do
CSTA.
Um grande amigo, que por curiosidade tem o nome Ângelo, falou
comigo a respeito de uma de suas aulas de Gramática no colégio que trabalhamos,
curiosamente um colégio de freiras, e que tem como nome uma homenagem ao santo
Tomaz de Aquino... não sei se é curioso ou engraçado, se é que é possível dizer
isso. Mas o fato é que esse meu amigo, professor, falou com a turma a respeito
de um menininho, um bebê, Alfie Evans,
britânico, 1 ano e 10 meses de vida, e que infelizmente está acometido
de uma doença cruel e degenerativa, com isso Hospital e o Estado querem parar o
tratamento, que obviamente o levará a Morte, os pais (Chiquinho) lutam por mais
uma lufada de vida.
Fiquei pensando ao ler a matéria, que reproduzia
a defesa que o Papa Francisco havia feito no Twitter a respeito do caso, eu amo
o Papa Francisco, o mais pop dos papas, o mais fofo dos papas, o mais..., sei
lá... só de pensar que ele existe eu já sinto vontade de chorar, como se
acabasse de ler um poema, como se acabasse de ver um bom filme, ouvir uma linda
música, ou de me ver sozinho numa sala escura, ao som de música barroca, no ar
frio diante da tela de Bosh.
Esse preludio todo pode parecer inútil, mas não é...
essa criança veio ao mundo com uma missão, esse sofrimento todo surgiu com
algum propósito, e é obvio que não temos capacidade intelectual e espiritual
para discernir algo assim... o que dizer? Complicado. Contudo, há alguns anos
eu ouvi de minha filha a seguinte história. Alice, tinha na época uns cinco
anos, veio até a Me (tade) e eu, estávamos na sala, e nos disse o seguinte:
“Mamãe e Papai... (nesse momento tirei o som da
TV), quando eu estava no céu, eu era um anjinho (qual é o nome do professor de
Gramática mesmo?), fui até o papai do céu (qual o significado latto de Papa
mesmo?) e pedi a ele que me deixasse vir até vocês, para ser a filhinha de
vocês, cuidar de vocês... lá de cima sentia que vocês precisavam de mim. Daí
PAPAi do céu me perguntou se era isso mesmo que eu queria, deixar de ser anjo
para ser filhinha, e eu disse que sim... eu gostava de ficar voando lá em cima,
olhando para vocês, aí ele deixou e eu vim morar primeiro na barriga da mamãe.
Eu sempre ouvia o papai ler poesia pra mim, ouvir as músicas dele..., e eu
adorava chutar as costas dele quando vocês dormiam abraçadinhos...”
Meire e eu... ficamos estarrecidos, abraçamos a
pequena, ou pequeno Anjinho... e choramos.
Sabe... essa criança britânica que querem
desligar os aparelhos? Sabe essas pessoas que deixaram de ver a “Jiboia que
engoliu o elefante”? sabe esse adultos que não são mais capazes de ouvir os
anjos? Eles desligaram os ouvidos do coração e a frieza da existência congelou
suas veias... esse menino, esse anjinho, acredito eu, fez o mesmo pedido para o
PAPAi do céu... e foi morar primeiro na barriga daquela mamãe, que agora luta
para que ele possa viver uma hora a mais, um dia a mais, uma semana a mais, um
mês a mais, um ano a mais... uma vida a mais. Esse anjinho lindo, que
ironicamente foi defendido por um PAPA numa rede social (já parou para pensar
nisso?), veio a Terra para chutar as costas daquele pai... vê-lo sorrir,
beijá-lo, leva-lo à escola, levá-lo ao cinema, ao primeiro encontro,
acompanha-lo no parto do primeiro filho, primeiro neto...
Isso tudo por não acontecer quando um botão
passar do ON ao OFF em menos de segundos... segundos que poderiam dar asas a um
bebê, que preferiu deixar de viver com Deus para dividir sua existência com
pessoas tolas como nós... não sei se acha isso curioso, engraçado... mas uma
coisa eu digo... QUE VONTADE DE CHORAR.
Flávio Mello
09/04/2018
quinta-feira, 12 de abril de 2018
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Categoria:
Crônica
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Ouvir Paula
Fernandes e ler Tomás Antônio Gonzaga num lugar como Siqueira Campos faz de mim
um cara privilegiado, daí você lendo isso deve estar se perguntando: O que uma
coisa tem a ver com a outra? Bom..., talvez para você, grande crítico, nada..., mas
para mim ouvir SEIO DE MINAS é como que mergulhar nos veios de prata e ouro que
brotam da poesia de Gonzaga.
Em todo caso, se coloque no meu lugar... vivi
39 anos e meio da minha vida insalubre, envolto aos arranha-céus, arcos, viadutos
e paredões num sem-fim eterno, imagine você olhar para um céu/espelho que
reflete o cinza/chumbo de um asfalto doentio, some a isso o olhar vazio de um
sol tímido entre antenas e fios de alta-tensão.
O que mais
me doía era caminhar por uma infinidade de pessoas e me sentir sozinho, como no
metrô, na barriga de monstro de metal, sentado com meus fones de ouvido e meu
livro nas mãos, num erguer d’olhos perceber que 80% das pessoas ao meu redor
faziam o mesmo... como é triste se sentir sozinho ao lado de tantas pessoas.
Eu me
sentia num bote em mar aberto escrevendo cartas, as colocando em garrafas, e as
arremessando ao mar... um mar de concreto, e no fundo eu sabia – ninguém leria.
Minha alma
se sentia sufocada dentro de mim, eu podia ouvi-la gritar noites adentro, sem
parar, louca... até deixar a voz do meu coração rouca.
Gonzaga
estava no criado-mudo (o nome mais poético para um móvel), lembrei da música
SEIO DE MINAS da Paula, e o sentimento de Fugere Urbem me tomou por completo,
sim é verdade - eu amo PAULA FERNANDES, e sim eu amo Ana Maria Braga, desculpa, agora sim não há relação nenhum com o que quero falar...
O fato é
que cá estou, em Siqueira Campos e trabalho em Wenceslau Brás, num colégio de
freiras (que eu amo de paixão), todo SANTO dia eu me embriago com o céu desse
lugar, com os tons de verde desse lugar, são tantos tons que me sinto um
imbecil por não saber descrever, e voltando ao céu... ah o céu... parece um mar
infinito com grande navios de espuma, que navegam lentos e pesados como
elefantes cansados.
Tiro dezenas
de fotos (e mesmo com os moradores daqui rindo de mim) quero postar todas, mas
nunca sei que legenda colocar... esses dias fez frio, e uma névoa delicada caiu
sobre a estrada, como aqueles véus de mármores sobre mulheres sexys esculpidas
por mestres barrocos, foi tamanha beleza, que chorei... quase saí da estrada e me
deu uma vontade danada de parar o carro, ajoelhar e agradecer a Deus por ter me
presenteado às 6h com aquele banquete poético.
Hoje compreendo
quando Dirceu dizia para sua Marília... venha minha amada, vamos passear por
esses campos que parecem como você, ele não disse assim, tomei a liberdade de
adaptar, ele tinha uma bela Marília... eu tenho três, estou apaixonado por esse
lugar, aprendendo a tecer versos com a lã que tiro dessas nuvens, tingindo
minhas poesias com o verde desse lugar, bom... era isso... carpe diem.
Flávio
Mello
Siqueira
Campos, 02/04/2018
segunda-feira, 2 de abril de 2018
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Categoria:
Crônica
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Para Antônio Carlos Benedetti
Senti um
aroma suave hoje de tarde, o céu acinzentou, calado chorou. Senti um aroma
suave de antigo, de algo muito velho, não parecia cheiro de roupa guardada,
não... não era tão forte assim. Também não era um cheiro de casa muito tempo
fechada..., parecia um cheiro de livro antigo, bem guardado, bem conservado.
Não estava muito frio, mas parecia que sim..., a chuva escorria pela janela,
dava pra ver o vento balançar as árvores, um balé lento e melancólico.
Vi uma rosa
branca murcha ao caminha por uma das ruelas do cemitério.
Gosto de
caminhar pelas ruelas de cemitérios. Parece tão mórbido, não é? Mas eu gosto. É
que hoje faleceu a mãe de um grande amigo, tão amigo que quis o destino e o
Grande Arquiteto do Universo, que eu o chame de Irmão...
Irmão!
Assim eu o
chamo, como chamo muitos outros homens, homens que admiro profundamente.
Pensando
bem..., se o Grande Arquiteto, que é Deus, quer mesmo que eu o chame de Irmão,
hoje então faleceu também a minha mãe.
Acendi um
cigarro... e caminhei sozinho pela Necrópole.
Senti um
cheiro macio de algo muito antigo, o cheiro da Morte.
Essa
Donzela que caminha de preto pelas ruas do destino, com suas agulhas e a linha
da vida das pessoas, linha essa que tricota incansavelmente e hora ou outra,
com sua tesoura de prata, corta um fio aqui e outro ali. Essa Donzela que exala
de seus seios um aroma de velas que se apagam e flores que murcham, misturados
com fins de tardes chuvosos e mornos. Eu
a vi caminhar pela ruela de paralelepípedos do Tempo, olhou suavemente para um
linda senhora que estava sentada em sua cama e sorriu. Dois pássaros, muito
coloridos, desceram de uma amoreira e pousaram no travesseiro, piavam
delicadamente e comeram algumas sementes, que a senhora ofertava com as mãos em
forma de cunha.
A Morte foi
e se juntou a eles, pousou uma de suas mãos sobre um dos ombros da Senhora, e
murmurou algo inaudível em seus ouvidos... a senhora sorriu, e num gesto
delicado levou um dos pássaros para perto da Morte, fez um sinal de sim para
ela e voltou seu olhar para um retrato de família que descansava num criado
mudo, que mudo a tudo assistia.
A Morte
levantou, depois a senhora, os pássaros levantaram voo levando com eles uma
Alma de Luz, a Morte olhou pra mim... calado eu estava, calado eu fiquei...,
ergueu uma de suas mãos e me fez um gesto de silêncio, se virou e caminhou por
entre os túmulos até desaparecer entre as árvores, que fazem sombras aqueles
que para sempre descansam.
Sentei,
acendi um cigarro... e pedi, em forma de oração, que ao chegar minha hora Ela
venha da mesma maneira, com suas agulhas de tricotar e seu cheiro de livro
antigo.
Ir.
Flávio Ferreira de Melo
ARLS
Luz do Ocidente Nº 2706
Or.
De São Caetano do Sul – SP
28/09/2017
– 18h45min
sábado, 30 de setembro de 2017
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Categoria:
Crônica
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Quero mais que se dane, pensou ele ao entrar no bar e pedir uma cerveja, Pode fumar aqui, pergunta mostrando o maço de FREE, esperando uma reação da garçonete com cara de sono e maquiagem borrada, Sim..., disse ela jogando o pano de prato úmido e fedido sobre o ombro, ele puxa o cinzeiro pra mais perto, bate com o filtro do cigarro no isqueiro e o leva a boca, um gesto maquinal, mas que tem um quê de poético, a chama faz a brasa, o trago é ardente e profundo, a baforada é pesada e a fumaça cinza se dissipa no ar junto de um sorriso de satisfação, Dia difícil, pergunta um cara com cara de dono de bar, Pra cacete, responde com cara de cara de mal, Imagino, ultimamente todo dia tem sido um dia difícil pra mim..., Pra nós, retruca ignorando, com cara de cara com problemas maiores. Entre as garrafas, refletido no espelho manchado, vê o próprio rosto e se lembra das propagandas ANTITABAGISMO que colocam nos maços de cigarro, um rosto cinza, sem vida, olhos tristes e fundos, que no fundo não representam nada, não dá bola, como disse ele, quer mais que se dane, não é, pois bem... vê uma barata percorrer as garrafas de cachaça, barata que fica maior dependendo da quantidade de bebida que cada frasco guarda em si, ele a segue calado, não quer fazer alarde para não perde-la de vista, é uma descoberta, uma epifania suja e alcoólica... só dele, sorri, com cara de cara de besta, traga, dá um gole na cerveja num copo de pingado, percebe a marca de uma digital no vidro baço do copo, não liga, a barata para, ele para... o cigarro apaga, o ventilador gira mais lento, a poeira se levanta estranhamente, com violência o jornal esmaga a barata entre a prateleira e a parede engordurada, o cara com cara de dono de bar sorri, Filho da puta, pensa ele, que cara mais filho da puta... guarda o cigarro no bolso da jaqueta jeans, joga uma nota de dez no balcão, valor do litrão, o cara com cara de dono de bar agradece, mas ele responde sem dó, mostrando desprezo, Vai tomar no cu.
REVISTA TAMISES
ACADEMIA DE LETRAS DA GRANDE SÃO PAULO
ALGRASP
São Caetano do Sul - SP
A Revista Tamises faz parte das publicações anuais do Escritor Flávio Mello, ele está presente com seus textos desde a Edição de Nº 9, onde se encontra seu Discurso de Posse.
Link para download da Revista Tamises 14


O som dos remos, o som das águas
cortadas, o som da água ao bater no pequenino barco, o som dos pássaros
empoleirados em galhos as margens do rio, o som da vegetação que o circunda, o
som do vento que o rouba do silêncio bucólico... natureza.
Ao chegar ao centro do rio o homem atira para o fundo um
pequeno peso de ferro fundido, olha a sua volta, admira o silêncio que o
persegue desde que iniciou sua ida ao rio, desde que sairá de casa, desde que
nascera. Ouve pequenos murmurinhos uns dos peixes que vêm à tona em busca de
insetos, outros de pequenos dragões que voam rasos na superfície do rio, ou
então o som do rio correndo, singrando em direção ao declive de sua existência,
ao declive de sua extensão.
A minhoca sente o anzol penetrar-lhe a carne, sente o
húmus que mal digerido escorre por seus orifícios, sente o sabor da garoa sobre
a relva, sente ruminar forçosamente um alimento rico em nutrientes. A minhoca
sente o frio gélido do rio, sente seu túmulo aquático, sente sua morada úmida, muito
mais úmida que a terra que a gerou. A minhoca sabe de sua função.
O homem, meio velho, meio novo, meio do campo, meio do
urbano, meio bravo, meio calmo, vai a silêncio matutando, reflexionando o que
pode ou não fazer, o frio ente preciso nestes locais faz-se presente, abre ele
então uma garrafa de conhaque ascende o toco do cigarro, semimastigado, espera
a bóia denunciar a má sorte de um ou outro peixe, o sol mal despontou, mal
despertou de seu sono preciso de doze horas, seu sono é demasiadamente longo
para um ser de sua grandeza, determinante, O sol deveria ter uma vida menos
regrada, aparecer de vez em quando para um chá, quem sabe um café, pensava o
homem, às vezes é difícil viver por estas bandas, dizia consigo mesmo enquanto
fazia a carnificina das minhocas.
E lá esta ele, preciso como ele só, gigante e quente,
belo e único, forma de grande extensão, grande pai de vida e luz.
A minhoca não se afoga, não consegue morrer antes de um
fim tão dilacerante, tão cruel, vem das águas profundas e turvas um peixe de
proporções mitológicas, tão rápido, dá sua primeira dentada, a minhoca luta sem
forças, erguendo sobre o aço cirúrgico um naco de corpo, debatendo-se,
gritando, um som enigmático, um som que as águas não permitem chegar aos
ouvidos do homem, pois se fossem as águas dilatadoras de sons, a minhoca
gritaria seu grito de minhoca tão alto que o homem correria em seu socorro, o
peixe deu a volta, volta mais rápido que no primeiro golpe, arranca outro naco
de minhoca, os restos que lá ficaram é a cabeça, parte do abdômen, o peixe tal
a baleia que engoliu Jonas regressa e de um único golpe engole os restos de
minhoca que eram presos ao anzol, dado ao homem por seu pai, um tio... a bóia
afunda, o homem se levanta, a bóia afunda novamente, o homem dá pulinhos de
alegria, se ergue, se estica, se aumenta, dobra seu tamanho, vê o tamanho de
sua pesca, dá um grito, um grito que se minhoca o tivesse não seria janta,
almoço de peixe de rio ou oceano, passa à hora, passam as horas, lá esta o
homem disposto e feliz com sua pesca colorida e soberba, na boca horrenda do
peixe vê-se inda um resto de minhoca, sem grito, sem vida, o peixe sabe de sua
função.
ou canto ao tempo
Na entrada do casebre ergueu a barra do vestido à altura
dos joelhos e sentou-se num dos três degraus debaixo da alpendrada, despejou os
grãos dentro do pilão e o acomodou entre as grossas e torneadas coxas. Socando
e torcendo enquanto o suor lhe umedecia o peito despertando um par de mamilos
agudos e delicados, assim, cantarolava cantigas que aprendera com a avó materna
escrava de um ontem meio que distante, porém tão próximo que ela, neta delgada,
morena jambo, entardecer sobre mobília de jacarandá polido, ainda guarda nas
costas as marcas da infância de grilhões e pelourinho.
Esmigalha os grãos já torrados e selecionados, o som do
pilão é uníssono, assim como todo entardecer antes de ser engolido pelo lago e
pela mata, assim como o cantar das lavadeiras, o som se perpetua fazendo-se
parte de um coro de maritacas e araras azuis em revoada, o som das chinelas (em
revoada) se empalham pela cozinha, a água no fogão a lenha borbulha, o som
típico denuncia o tempo, estalos da madeira verde.
Apanha o coador de saco num armário de cor rosa
descascado, despeja o pó dos grãos de café por ela moído, despeja a água
fervente e a tintura escorre para dentro de uma chaleira improvisada, sente
dentre o aroma do café o cheiro da pesca, ouve entre os cantos dos pássaros o som
do remo, sente o toque delicado da chalana no pequeno cais na beira do lago,
sente o braço peludo e musculoso do pescador lhe agarrar por trás, sente o
fluido escorrer por entre as pernas, já que calçolas não usava, sente os dedos
grossos e sisudos percorrerem os pêlos eriçados, o aroma do café adentra a
narina aberta, a barba roçando a nuca, o contorcer do pilão e as duas cinturas
se unem, sente o membro rijo tocar-lhe as nádegas úmidas, sente o gosto da
língua, da cachaça, um desmaio, um breve e delicado desmaio, e, desperta na
cama ouvindo o som do remo, e, o canto da maritaca se distanciando, se
distanciando, se distanciando em revoada.
o conto O Pilão fez parte da coletânea de autores Entrelinhas, Andross Editora
ou com ou muito mofo
por Flávio Mello
Ela
era gorda e descomunal.
Ela
era gorda e descomunal, mas isso não lhe fazia se sentir mal... nem ligava pra
dizer a verdade.
Ela
ficava lá... olhando pro nada, calada, em si mesma fechada.
Ela
era gorda e descomunal sim, mas e daí? Desde quando isso desmerece ou deprecia
alguém, ela tem lá suas qualidades. Acredito eu!
Ela
ficava lá... entre livros, entre linhas, entre prateleiras, entre capas, entre
palavras.
Ela
adorava ler.
Sua
mãe sempre lhe dizia: Filha... isso vai acabar te matando.
Ela
ironizava: Que é isso mãe... o que não mata engorda.
Ela
era gorda e descomunal.
Vivia
entre livros.
Vivia
nas bibliotecas.
Com
ou pouca luz...
Com
ou pouco mofo...
Devorava
palavras, frases, parágrafos, páginas, capítulos, livros inteiros.
Entre
oração e oração cometia o pecado da gula.
Ela
era assim...
Uma
traça gorda e descomunal que um dia morreu entre Camões e Machado de Assis,
pressionada com tanta erudição não suportou a pressão.
quinta-feira, 28 de julho de 2016
-
Categoria:
Crônica
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ou quem somos
Esses dias me
botam pra baixo, Eu sei, Sabe, será que sabe mesmo, Acho que sim, amor...,
Nossa quanto tempo faz, quanto tempo, Quanto tempo o quê, Que não me vem de
amor..., me chamar assim, nossa, séculos, nem nas guerras, nem nas pazes, nem
nos mares, parece que me vejo perdida num deserto e num deserto de mim, de mim
mesma, sem meu eu, seu um eu para encher-me até a tampa, mesmo não havendo
tampa, Como não há tampa, eu sou a tampa, É, quem sabe, pode ser, Pode ser,
como assim, o que foi, Nada lindo, esquece, acho que é o tempo, esse céu cinza,
esse lar escuro, com cheiro de mofo, tão vazio de cor e cheio de sombras largas
e profundas, as vezes parece que me afogo nelas, que me perco dentro de um mar
de escuridão, Sou um ponto de luz nessa hora, É, pode ser, mas distante,
entende, Nossa, vive acabando com minha poesia, Por que nem tudo é literatura,
Nossa eu sei, como você pode, nossa... Nossa... como posso, como posso
erguer-me de manhã e olhar o céu, um céu como esse olhe, vê..., entende, Sim,
está feio mesmo, Nossa demais, parece que as corres escoaram durante a noite e
foram ralo abaixo em algum rio poluído da humanidade, Nossa como você fala
bonito, Bonito, É profundo, sei lá, parece que filosofa tudo, que tudo há porquês?
acho tão bonito, tão bom te ouvir, você me inspira, Inspirar, sei lá, parece
tudo tão perdido, não aguento ver o dia assim, Assim como, Morto, Morto, É
morto, fenecido, estiolado, como se uma foice tivesse rasgado a barriga da vida
e sugado toda a essência da humanidade, olhe as pessoas, olhe as pessoas, O que
tem as pessoas, Olhe para as vestes, olhe o que cobre seus corpos, olhe tudo
tão antigo, com cheiro de naftalina ou gosto do guardado, guarda-chuvas,
sobretudos, tudo tão escondido, Pronto, Pronto o que amor, A energia voltou,
Graças a Deus... a novela.
(Texto Completo)
Livro: Cantos do Cotidiano - 2012
Autor: Flávio Mello
Autor: Flávio Mello
sexta-feira, 15 de julho de 2016
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Categoria:
Crônica
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