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E, NUM DIA CINZA



ou quem somos



"Esses dias me botam pra baixo, Eu sei, Sabe, será que sabe mesmo, Acho que sim, amor..., Nossa quanto tempo faz, quanto tempo, Quanto tempo o quê, Que não me vem de amor..., me chamar assim, nossa, séculos, nem nas guerras, nem nas pazes, nem nos mares, parece que me vejo perdida num deserto e num deserto de mim, de mim mesma, sem meu eu, seu um eu para encher-me até a tampa, mesmo não havendo tampa, Como não há tampa, eu sou a tampa, É, quem sabe, pode ser, Pode ser, como assim, o que foi, Nada lindo, esquece, acho que é o tempo, esse céu cinza, esse lar escuro, com cheiro de mofo, tão vazio de cor e cheio de sombras largas e profundas, as vezes parece que me afogo nelas, que me perco dentro de um mar de escuridão, Sou um ponto de luz nessa hora, É, pode ser, mas distante, entende, Nossa, vive acabando com minha poesia, Por que nem tudo é literatura, Nossa eu sei, como você pode, nossa... Nossa... como posso, como posso erguer-me de manhã e olhar o céu, um céu como esse olhe, vê..., entende, Sim, está feio mesmo, Nossa demais, parece que as corres escoaram durante a noite e foram ralo abaixo em algum rio poluído da humanidade, Nossa como você fala bonito, Bonito, É profundo, sei lá, parece que filosofa tudo, que tudo há porquês? acho tão bonito, tão bom te ouvir, você me inspira, Inspirar, sei lá, parece tudo tão perdido, não aguento ver o dia assim, Assim como, Morto, Morto, É morto, fenecido, estiolado, como se uma foice tivesse rasgado a barriga da vida e sugado toda a essência da humanidade, olhe as pessoas, olhe as pessoas, O que tem as pessoas, Olhe para as vestes, olhe o que cobre seus corpos, olhe tudo tão antigo, com cheiro de naftalina ou gosto do guardado, guarda-chuvas, sobretudos, tudo tão escondido, Pronto, Pronto o que amor, A energia voltou, Graças a Deus... a novela."



Fevereiro pode partir com seu cheiro e sabor de morte


Bom dia,

Ontem foi um sonho e anjos tocaram suas trombetas douradas no alvorecer... um sonho.

Entre as copas das árvores e telhados das formosas campas raios de sol se deitavam em uníssono estribilho. Um sonho.

Entre os corredores da necrópole campas formosas, uma reunião eterna de silêncio e reflexão de meus irmãos de ontem e de hoje.

Mausoléus dos passos perdidos.

O dia hoje despontou com as ruas molhadas pela chuva noturna, pena eu não a ouvi... sei que caiu e com sua queda um cheiro de esperança, pois amanheceu para mim.

O poeta sussurra em meus ouvidos... "eu acredito" e eu também... o mês de fevereiro pode partir com seu cheiro e sabor de morte. Sigamos... ainda temos uma jornada rumo ao desconhecido.

Nossos passos passados passam calados por tormentos, sofrimentos, perdas, saudades... é a túnica que nos serve. Mas sigamos, viver é o caminhar e os passos pesados dos elefantes, a trilha profunda que se arrasta de nós para o infinito. Sigamos.

Viver nos basta.

Vejo pinturas em um enorme salão, todas assinadas por Ele, e D`ele e somente D`ele é a autoria... retratos a óleo delicadamente perfeitos... pessoas que conheço, que não conheço,  dezenas de milhares... mas não vejo a minha. O curador ainda não a desembrulhou de seu papel pardo... não é a hora.

Viver me basta.

É hora de perdoar, de esquecer a areia quente que engolimos, é hora de abrir os braços e pedir perdão.

Fiquem bem, sejam fortes e somemos.



SOBRE DEIXAR IR (OU FICAR)


Para Ângelo Simões
E aos meus alunos da 3ª Série do E. M. do CSTA.

Um grande amigo, que por curiosidade tem o nome Ângelo, falou comigo a respeito de uma de suas aulas de Gramática no colégio que trabalhamos, curiosamente um colégio de freiras, e que tem como nome uma homenagem ao santo Tomaz de Aquino... não sei se é curioso ou engraçado, se é que é possível dizer isso. Mas o fato é que esse meu amigo, professor, falou com a turma a respeito de um menininho, um bebê, Alfie Evans, britânico, 1 ano e 10 meses de vida, e que infelizmente está acometido de uma doença cruel e degenerativa, com isso Hospital e o Estado querem parar o tratamento, que obviamente o levará a Morte, os pais (Chiquinho) lutam por mais uma lufada de vida.

Fiquei pensando ao ler a matéria, que reproduzia a defesa que o Papa Francisco havia feito no Twitter a respeito do caso, eu amo o Papa Francisco, o mais pop dos papas, o mais fofo dos papas, o mais..., sei lá... só de pensar que ele existe eu já sinto vontade de chorar, como se acabasse de ler um poema, como se acabasse de ver um bom filme, ouvir uma linda música, ou de me ver sozinho numa sala escura, ao som de música barroca, no ar frio diante da tela de Bosh.

Esse preludio todo pode parecer inútil, mas não é... essa criança veio ao mundo com uma missão, esse sofrimento todo surgiu com algum propósito, e é obvio que não temos capacidade intelectual e espiritual para discernir algo assim... o que dizer? Complicado. Contudo, há alguns anos eu ouvi de minha filha a seguinte história. Alice, tinha na época uns cinco anos, veio até a Me (tade) e eu, estávamos na sala, e nos disse o seguinte:

“Mamãe e Papai... (nesse momento tirei o som da TV), quando eu estava no céu, eu era um anjinho (qual é o nome do professor de Gramática mesmo?), fui até o papai do céu (qual o significado latto de Papa mesmo?) e pedi a ele que me deixasse vir até vocês, para ser a filhinha de vocês, cuidar de vocês... lá de cima sentia que vocês precisavam de mim. Daí PAPAi do céu me perguntou se era isso mesmo que eu queria, deixar de ser anjo para ser filhinha, e eu disse que sim... eu gostava de ficar voando lá em cima, olhando para vocês, aí ele deixou e eu vim morar primeiro na barriga da mamãe. Eu sempre ouvia o papai ler poesia pra mim, ouvir as músicas dele..., e eu adorava chutar as costas dele quando vocês dormiam abraçadinhos...”

Meire e eu... ficamos estarrecidos, abraçamos a pequena, ou pequeno Anjinho... e choramos.

Sabe... essa criança britânica que querem desligar os aparelhos? Sabe essas pessoas que deixaram de ver a “Jiboia que engoliu o elefante”? sabe esse adultos que não são mais capazes de ouvir os anjos? Eles desligaram os ouvidos do coração e a frieza da existência congelou suas veias... esse menino, esse anjinho, acredito eu, fez o mesmo pedido para o PAPAi do céu... e foi morar primeiro na barriga daquela mamãe, que agora luta para que ele possa viver uma hora a mais, um dia a mais, uma semana a mais, um mês a mais, um ano a mais... uma vida a mais. Esse anjinho lindo, que ironicamente foi defendido por um PAPA numa rede social (já parou para pensar nisso?), veio a Terra para chutar as costas daquele pai... vê-lo sorrir, beijá-lo, leva-lo à escola, levá-lo ao cinema, ao primeiro encontro, acompanha-lo no parto do primeiro filho, primeiro neto...

Isso tudo por não acontecer quando um botão passar do ON ao OFF em menos de segundos... segundos que poderiam dar asas a um bebê, que preferiu deixar de viver com Deus para dividir sua existência com pessoas tolas como nós... não sei se acha isso curioso, engraçado... mas uma coisa eu digo... QUE VONTADE DE CHORAR.



Flávio Mello

09/04/2018



SOBRE FUGIR DA CIDADE...


Ouvir Paula Fernandes e ler Tomás Antônio Gonzaga num lugar como Siqueira Campos faz de mim um cara privilegiado, daí você lendo isso deve estar se perguntando: O que uma coisa tem a ver com a outra? Bom..., talvez para você, grande crítico, nada..., mas para mim ouvir SEIO DE MINAS é como que mergulhar nos veios de prata e ouro que brotam da poesia de Gonzaga. 


Em todo caso, se coloque no meu lugar... vivi 39 anos e meio da minha vida insalubre, envolto aos arranha-céus, arcos, viadutos e paredões num sem-fim eterno, imagine você olhar para um céu/espelho que reflete o cinza/chumbo de um asfalto doentio, some a isso o olhar vazio de um sol tímido entre antenas e fios de alta-tensão.

O que mais me doía era caminhar por uma infinidade de pessoas e me sentir sozinho, como no metrô, na barriga de monstro de metal, sentado com meus fones de ouvido e meu livro nas mãos, num erguer d’olhos perceber que 80% das pessoas ao meu redor faziam o mesmo... como é triste se sentir sozinho ao lado de tantas pessoas.

Eu me sentia num bote em mar aberto escrevendo cartas, as colocando em garrafas, e as arremessando ao mar... um mar de concreto, e no fundo eu sabia – ninguém leria.
Minha alma se sentia sufocada dentro de mim, eu podia ouvi-la gritar noites adentro, sem parar, louca... até deixar a voz do meu coração rouca.

Gonzaga estava no criado-mudo (o nome mais poético para um móvel), lembrei da música SEIO DE MINAS da Paula, e o sentimento de Fugere Urbem me tomou por completo, sim é verdade - eu amo PAULA FERNANDES, e sim eu amo Ana Maria Braga, desculpa, agora sim não há relação nenhum com o que quero falar...

O fato é que cá estou, em Siqueira Campos e trabalho em Wenceslau Brás, num colégio de freiras (que eu amo de paixão), todo SANTO dia eu me embriago com o céu desse lugar, com os tons de verde desse lugar, são tantos tons que me sinto um imbecil por não saber descrever, e voltando ao céu... ah o céu... parece um mar infinito com grande navios de espuma, que navegam lentos e pesados como elefantes cansados.

Tiro dezenas de fotos (e mesmo com os moradores daqui rindo de mim) quero postar todas, mas nunca sei que legenda colocar... esses dias fez frio, e uma névoa delicada caiu sobre a estrada, como aqueles véus de mármores sobre mulheres sexys esculpidas por mestres barrocos, foi tamanha beleza, que chorei... quase saí da estrada e me deu uma vontade danada de parar o carro, ajoelhar e agradecer a Deus por ter me presenteado às 6h com aquele banquete poético.


Hoje compreendo quando Dirceu dizia para sua Marília... venha minha amada, vamos passear por esses campos que parecem como você, ele não disse assim, tomei a liberdade de adaptar, ele tinha uma bela Marília... eu tenho três, estou apaixonado por esse lugar, aprendendo a tecer versos com a lã que tiro dessas nuvens, tingindo minhas poesias com o verde desse lugar, bom... era isso... carpe diem.

Flávio Mello
Siqueira Campos, 02/04/2018






12/04/2018
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